
“TODA MEDICINA TEM
RAÍZ ANCESTRAL”

Muito antes dos primeiros compostos ativos isolados, dos primeiros psicodélicos sintéticos ou dos primeiros cientistas de jaleco se debruçarem sobre estruturas alucinógenas microscópicas, já havia quem conhecesse muito bem o funcionamento e a usabilidade da Ayahuasca, da Psilocibina e da Ibogaína — os povos originários mundo afora, que utilizavam dessas substâncias com fins culturais, medicinais e religiosos.
Em decorrência do processo colonizador de subalternização desses povos, seus conhecimentos sobre os benefícios psicodélicos acabaram por serem escanteados. Esse massacre epistemológico é o próprio responsável por criar mais uma barreira nas etapas históricas de compreensão de como um “simples” chá, cogumelo ou raiz possuem qualidades que vão além da compreensão científica.
Inclusive, esse afastamento garante a sobrevivência e certo distanciamento oportuno entre a experiência vista como contemporânea e aquele que toma corpo dentro de ambientes tradicionais. Para entendermos melhor essa dualidade de experiências psicodélicas, conversamos com a liderança indígena do povo Huni Kuin, o cientista Maru, que realiza pesquisas com plantas medicinais da floresta.
Pós-graduado em Pedagogia e mestre em Medicina, Maru é especialista na pesquisa de medicinas tradicionais que regem a ancestralidade e a mística por trás do uso para fins espirituais de diversos povos ou indivíduos. Os conhecimentos que até então eram passados “de pai para filho”, segundo o pesquisador, aproveitam o espaço de crescimento científico para dar corpo e embasamento àquilo que configura o uso espiritual dos psicodélicos.
“Quem quer pesquisar o tradicional vai pesquisar também os conhecimentos de Deus, que implementam a nossa ancestralidade, a culturalidade e a espiritualidade”. Com isso, Maru explica que o conhecimento ancestral e a tradição naturalista, comum à sua e outras comunidades indígenas, provém do conhecimento cultural compartilhado Essa é, talvez, a característica principal responsável por diferenciar a prática psicodélica de um ponto de vista originário e o que chamamos de uso “branco”.
O termo branco nada mais é do que um substituto para o saber contemporâneo, baseado em valores que tentam se desprender da espiritualidade, ao mesmo tempo que se escoram exclusivamente na ciência, no academicismo e no distanciamento do xamanismo. Por um lado, há sim um caminho de congruências entre as duas práticas, por mais breve que seja, já pelo outro, vivemos um momento que renega saberes milenares de quem vivencia o uso psicodélico em sua estrutura sócio-cultural.




O projeto geral de Maru Huni Kuin vai além da pesquisa com plantas medicinais da natureza, mas, também, na missão de implementar um laboratório de medicinas tradicionais,científicas específicas e culturais para poder contribuir e ampliar esse conhecimento para a sociedade.“Muita gente desconhece que é real, até porque nunca viram um indígena colocando isso em prática”, comenta.
É por meio de sua pesquisa que voltamos à já mencionada área de congruência entre cientificismo e tradicionalismo. A união desses dois espectros não significa que comunidades indígenas deixem de incorporar conceitos biológicos, químicos ou físicos do funcionamento de compostos psicoativos, mas para essas comunidades esse fator recebe menor relevância quando comparado com a experiência individual em si.
O uso originário objetiva, por fim, a cura de doenças, o auxílio psicológico e até mesmo o acompanhamento ritualístico, e para entendê-lo melhor é preciso recorrer àquilo que não encontramos em relatórios finais de pesquisas ou em livros teóricos: a conexão com o objeto de consumo. “Hoje as pesquisas, na maioria das vezes, estão muito fracas porque as pessoas não estão sabendo ler as plantas que usam [...], mas as plantas existem porque existem transformações”, complementa.
A ideia de renascimento também acompanha o cenário psicodélico tradicional, mas de forma um pouco diferente. Aqui, a ideia de “renascer” se conecta diretamente com os valores sociais do ser humano atual, parte de uma sociedade de “experiências rasas, rápidas e superficiais”. Recorrer à experiência psicodélica é a melhor alternativa para restaurar a culturalidade: “não existe conhecimento mais precioso que a linguagem, a arte, a história, a culinária”, finaliza Maru.
Em meio a dualidade científica para com a realidade tradicional, Maru afirma que o propósito de pesquisadores que buscam descobrir como os psicodélicos funcionam de fato é, na verdade, uma rua sem saída. A maneira como o homem mimetiza o local de poder da natureza, através do controle dessas substâncias, vai na direção contrária do que o pesquisador acredita ser um “conhecimento que você estuda, fica velho, morre e nunca se acaba”.
O líder indígena também levanta críticas quanto à relação cientista-indígena. Por mais que Maru reconheça a valorização de muitas pesquisas quanto aos ensinamentos tradicionais, ainda não existe uma via de mão dupla que equipare os dois lados. “O Brasil discrimina ou não valoriza o conhecimento que vem do próprio povo”, critíca o pesquisador, que entende também a falta de propostas concretas que oficializem o saber científico pela ótica originária.
A contribuição indígena para a ciência fica à mercê de um trabalho de coleta e troca de informações com fim de expandir os horizontes de conhecimento sobre o funcionamento psicodélico. A terapia psicodélica deve enfrentar as experiências místicas, mas para enfim driblar essa subjetividade processual será preciso incorporar o local de fala onde a ciência não dá o parecer final.
Voltando ao conceito de “uso branco”, há ainda outro aspecto do consumo que desafia a perspectiva tradicional, assim como configura a experiência a partir de premissas preconceituosas ou mal embasadas. Observando a incorporação de alucinógenos no turismo psicodélico, no uso pediátrico e até mesmo no consumo recreativo, encontramos mais uma forma de contribuir com o distanciamento do conhecimento de povos originários, banalizando uma ferramenta espiritual poderosa, e que até mesmo pode resultar em efeitos perigosos ao indivíduo.
“Aquele que utiliza alucinógenos por curiosidade, pode acabar saindo ainda mais confuso; aquele que utiliza alucinógenos por divertimento, pode acabar saindo ainda mais vazio”. É assim que Maru retoma a importância de utilizar dessas substâncias sem se desprender do status medicinal – “se tu não tiver objetivo, não tiver intuição para o que tu quer de verdade mesmo, o pessoal vai apanhar sim”, complementa.
Na busca por entender se existe a possibilidade de unir os conhecimentos científicos e tradicionais, é importante ressaltar até que ponto isso é desejado. Pela ótica academicista, a resposta é clara: sim! Ainda assim, é preciso dar espaço para uma discussão fundamentada no que comunidades detentoras desses saberes têm a dizer sobre essa troca de informações.
O líder indígena, ambientalista, filósofo e escritor brasileiro, da etnia indígena krenaque, Ailton Krenak esclarece alguns pontos pertinentes quanto ao uso de substâncias psicodélicas para tratamentos médicos. Para ele, “quanto mais apavorante é uma doença, mais importante é achar uma cura para ela”, uma percepção que balança para os dois lados – para a população que pode se beneficiar de medicinas tradicionais, ao mesmo tempo que a indústria farmacêutica e cosmética se beneficia economicamente em cima dessas comunidades.
Por fim, a participação indígena dentro do renascimento psicodélico resulta em novos métodos para contribuir com a psiquiatria, medicina e farmacologia, porém por novos meios que ainda precisam ser encontrados, visando garantir o retorno, a contribuição e os benefícios para comunidades indígenas que estão na ponta de menor dependência quando o assunto é a troca de conhecimentos.
“A cultura transforma e foi ela que me levou a esse caminho de tradições e sabedoria” – com as palavras finais de Maru, entendemos como esses processos transformam e solidificam a busca por uma psicodelia mais completa. Agora, é preciso esperar as cenas dos próximos capítulos para sabermos: como as medicinas originárias serão implantadas em nossa realidade?
