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Divulgação plural e acessível

O meio científico como um todo requer certo desconforto para seu entendimento. Seu processo de aprendizado demanda tempo, atenção e uma construção concisa daquilo que se busca entender, ou seja, o caminho contrário do que é realizado por pesquisadores como os que foram entrevistados em nosso projeto. O desafio que nos resta é exatamente esse: descobrir o meio ideal que abarque, ao mesmo tempo, qualidade e consumibilidade.

Na busca pelo equilíbrio entre um conceito e outro, a comunicação acessível emerge como um ponto de encontro da área jornalística que inclui o leitor. A ideia central não é que quem vá consumir esses conteúdos não entenda nada sobre o tema, mas de que, na verdade, cada um possa ser inserido de forma natural e sem contratempos na cadeia de produção científica, que é, por si só, afastada da população de forma geral. 

Estabelecer a autonomia de um público leitor passa, primeiro, pelo desenvolvimento de um padrão informacional que atenda as demandas de quem consome as notícias do momento atual, sem deixar de lado premissas básicas do jornalismo de qualidade, plural e que se debruce em questões fundamentais de sua área em detrimento de detalhes técnicos. Essas etapas estabelecem a informação com mais forma, clareza e impacto, uma via de mão tripla entre quem escreve, quem lê e quem pesquisa. 

Posto tudo isso, delimitamos o que esse projeto contribui para o meio midiático: um pouco de jornalismo psicodélico! Ainda que seja tido como um sub-nicho ou algo não oficial (muito em função de sua falta de concretude conceitual acadêmica), propormos colaborar com a concretização de um nicho que explora e aprofunda conteúdos baseados na difusão e experimentação.

Contudo, apenas a visão de quem escreve esse texto ou as bases teóricas utilizadas não servem para estabelecer o ponto de vista final quanto ao papel da mídia em relação ao desenvolvimento científico psicodélico. Para isso, procuramos entender diretamente com cada um dos entrevistados a avaliação de quem efetivamente produz ciência e como o jornalismo psicodélico pode servir como um canal de auxílio de seus projetos:
 

Dráulio Barros
de Araújo

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“A gente tem que ter um debate muito ponderado mesmo e muito racional de dizer ‘bom, o psicodélico nem é uma bala de prata que vai curar todo mundo ou a solução para o mundo, nem é o veneno de jararaca que a pessoa basta tocar ali e tá arriscado de morrer’. Nem tanto ao céu, nem tanto à terra. E eu diria que a comunicação midiática é o que traz a possibilidade do grande público ter acesso a essa informação. 

O grande público não tem acesso ao artigo científico que a gente publica, então essa tradução do conhecimento é super importante. Aí que um alinhamento da ciência e do jornalismo pode trazer um grande benefício social.”
 

Renato
Filev

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“Acho que o papel da mídia é fundamental na divulgação científica como um todo, não só na questão dos psicodélicos, mas claro que essa área tem uma carência a mais.

Acredito que isso aconteça por muitos fatores. O capitalismo em si é um deles, mas não é o único. Podemos olhar para a infodemia e o formato de relação mediada por um dispositivo digital que gera suas consequências e, assim, as pessoas acabam não consumindo.

Então é fundamental que possamos contar com esse olhar questionador do jornalismo de qualidade, que possa ajudar a traduzir e transcrever o que é feito na ciência de forma concreta e cotidiana.”
 

BRUNO RASMUSSEN

“Mostrar que não precisa ter tanto preconceito, mostrar a verdade é algo muito importante. Por exemplo, já morreu gente pelo uso? Sim! Já trabalhei com pessoas que falavam: ‘não fala que morre gente de ibogaína não’. Mas, tem que falar, tem que falar a verdade.

 

A verdade é o antídoto contra tudo. Então acho que o papel da jornalismo é conseguir fazer essa ponte entre quem entende um pouquinho do assunto e quem não entende nada, mas lembrando que como há preconceito, então é [um trabalho] mais árduo ainda.Você não tem só que explicar, tem que explicar de um jeito que convença ou que pelo menos dê mais condições para aquela pessoa, que está recebendo essa mensagem, de formar uma opinião própria e não de copiar a dos outros.”

 

I Jornalismo Psicodélico

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

O conceito de “renascimento” carrega consigo a noção de construir uma nova identidade para determinado assunto e no meio psicodélico isso não poderia ser diferente. A ciência se reformula por meio de novas tecnologias que lançam luz sobre novas perspectivas com tais substâncias, mas como isso acontece no universo jornalístico? Para chegarmos ao cerne dessa questão, contamos com a experiência das principais mentes pensantes do meio jornalístico. 

 

Carlos Minuano iniciou sua trajetória profissional no meio dos quadrinhos, mesmo motivo pelo qual seguiu suas companhias profissionais para enfim se enveredar nos lados jornalísticos. Foi inclusive no início de sua carreira jornalística, quase que de forma premeditada, que seus interesses profissionais e psicodélicos passaram a andar em um só caminho. Estava trabalhando em sua revista independente “Doutor Chico”, em 1999, quando foi procurado para publicar uma matéria sobre o uso da Ayahuasca.

 

O encantamento com os relatos e imagens da cerimônia daimista foi instantâneo – “olha, eu publico a matéria se você me levar para beber esse chá”. O que era apenas uma barganha para experimentar um misterioso enteógeno se concretizou como um passo em direção ao avanço do que conhecemos hoje por jornalismo psicodélico. Se trata de outra área de desenvolvimento científico (por mais que realizada de forma diferente das demais exploradas neste texto) que abre espaço para o debate, reflexões, novas perspectivas e olhares sobre os mais distintos psicoativos.

 

É por meio desses avanços que compreende-se uma nova lógica midiática na cobertura de pautas envolvendo compostos psicodélicos. Para Carlos, havia grande resistência em redações com relação ao tema, o que acarretava em pouco espaço para essas pautas. “Os psicodélicos eram tratados ou como assuntos da página policial ou aquela pauta exótica que relacionava o uso com seitas de forma tendenciosa”, analisa o psiconauta.

Assim, o avanço da ciência psicodélica como um todo cria um ambiente propício para o advento do jornalismo psicodélico contemporâneo, o qual passa a deixar de lado — ao menos no papel — visões moralistas, conservadoras ou proibicionistas nas construções de materiais midiáticos.. “E aí, o jogo começa a virar na imprensa, que começa a dar verdadeiro espaço”, comenta. 

É importante ressaltar a noção de “jornalismo psicodélico contemporâneo” como um nicho verdadeiramente recente, que passa a ter mais alcance e impacto no período de pós-pandemia. Tamanho é seu status de novidade que a própria cobertura jornalística desse nicho propõe um novo tipo de construção — quais são as melhores formas de contar histórias psicodélicas? É em busca disso que Carlos criou a Psicodelicamente, uma revista digital, com o objetivo de atender essa lacuna de informação no mercado editorial brasileiro.

A iniciativa desse e outros veículos que se dedicam a realizar cobertura jornalística psicodélica colocam um ponto final no deserto de notícias temático sobre esses compostos. De forma geral, a produção midiática funciona como uma espécie de produto final para com o desenvolvimento científico, mas que, ao mesmo tempo, não se limita a isso, dada a variedade de intersecções envolvendo o tema, como análises policiais, religiosas, econômicas, políticas, etc.
 

Nesse sentido, a pesquisa psicodélica no Brasil herda a importante missão de não só delimitar o que se configura como uma perspectiva sul-global deste segmento, como também procurar uma maneira acessível de divulgar produtos científicos. Jornalisticamente falando, Carlos entende que é preciso assumir o protagonismo num debate que tente traduzir a pesquisa “do” e “para” o brasileiro. “É muito importante que a gente precise discutir aqui no Brasil uma renascença psicodélica amazônica indígena”, enfatiza.

Para isso, podemos utilizar o famoso jargão: é preciso repensar a forma como o jornalismo é feito a fim de assumir o protagonismo brasileiro proposto. Carlos enxerga essa mudança de status quo por intermédio da prática e da experiência pessoal da realidade alucinógena. “Hoje em dia, as redações estão cada vez mais enxutas e distantes de territórios como a Amazônia, então é preciso ir para lá, conversar com eles, beber o chá de *Ayahuasca*”, afirma.

Olhando por outra ótica, agora de forma mais globalizada, é preciso dar espaço para uma das personalidades mais importantes do cenário psicodélico para entender como o jornalismo desse nicho propõe uma forma diferente do jornalismo tradicional. Michael Pollan, autor, ativista, guru e jornalista é quem escreve o livro “Como Mudar sua Mente”, muito provavelmente a obra mais importante para entendermos a relação entre jornalista como indivíduo em função do uso de psicoativos.

(Foto: Tabitha Soren)

Na busca de entender a nova ciência psicodélica e como esta pode nos ensinar sobre consciência, morte, vícios, depressão e transcendência, Pollan compartilha da importância em vivenciar a experiência alucinógena, no mesmo sentido que é fundamental concretizar de forma acessível os avanços que a renascença psicodélica oferece. É válido ressaltar que essa “corrente de pensamento” delimita para o fazer jornalístico com psicodélicos não uma regra (consumo, logo escrevo), mas, sim, uma maneira de aprimorar a criação de matérias e pautas com base na experimentação.

Reconhecendo isso, Michael Pollan, que participou de rituais psicodélicos pela primeira vez apenas quando já era mais velho, tende à uma noção diferente de como produzir e consumir o que o rodeava jornalisticamente. Podemos pegar algumas palavras emprestadas de seu livro para entendermos isso — “certas passagens místicas da literatura que antes me pareciam exageradas e abstratas, a ponto de motivarem uma leitura indulgente (se tanto), agora consigo ler como subespécies do jornalismo”, explica o autor.

É com isso que a mídia abre espaço para um desenvolvimento mais maleável e propenso a mudanças, sejam elas de estilo, de construção narrativa ou mesmo temática, em detrimento do enrijecido jornalismo tradicional. Para além disso, inclusive, Michael vai de encontro com o que Carlos Minuano comenta sobre construir espaços de narrativa que corroboram com o desenvolvimento de ciências psicodélicas distintas em funções geográficas, culturais, religiosas ou mesmo tradicionais.

“Outras sociedades tinham uma longa e produtiva experiência com os compostos psicodélicos, e seu exemplo poderia nos ajudar a evitar muitos problemas se tivéssemos prestado atenção. O fato de pensarmos em muitas dessas sociedades como “atrasadas” provavelmente nos impediu de aprender com elas. E a principal lição que poderíamos ter aprendido é que remédios poderosos são perigosos — tanto para o indivíduo quanto para a sociedade — quando não têm um recipiente social robusto: um conjunto definido de rituais e regras — protocolos — governando seu uso, e o envolvimento crucial de um guia, a figura que se costuma chamar de xamã.” – Como mudar sua mente, p.181

Por fim, não pode ser deixado de lado o que o jornalismo psicodélico incorpora do jornalismo científico como um todo. Em um texto que permeia diversas pesquisas que utilizam dessas substâncias para melhor compreensão psiquiátrica, farmacológica ou antropológica, torna-se clara a intenção principal com relação a divulgação de informações científicas. Isto posto, o segmento psicodélico assume contornos próprios de seu nicho único, mas sem deixar de lado a articulação com um terreno comum conforme implica a divulgação científica.

 

Dessa maneira, chegamos a esse ponto do texto abrangendo o escopo fundamental do que a produção psicodélica indica no desenvolvimento midiático. Entre a divulgação científica e a criação de um nicho que se segmenta, que experimenta e que, sobretudo, estabelece sua própria identidade, é definido aos poucos um jeito alucinógeno de fazer jornalismo de fora para dentro das redações.

Mente Expandida

©2023 por Bruno Azevedo e Vitor Tenca

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