
AYAHUASCA
Do quíchua aya, que significa 'morto, defunto, espírito', e waska, 'cipó', podendo ser traduzido como "cipó do morto" ou "cipó do espírito"
A junção de um cipó, um arbusto e uma série de plantas complementares é responsável por dar vida a um receptáculo ritualístico exclusivamente sul-americano: o chá de Ayahuasca.
O uso dessa bebida causa efeitos subjetivos a diferentes indivíduos, seja em função das diferenças pessoais e de ambiente. Alterações de percepção e sensações do corpo, estímulos vívidos de recordações, pensamentos e sentimentos, dissolução do ego ou do eu-pessoal, todas essas são características únicas para cada “viagem” ou rito ayahuasqueiro.
Essa série de ações diretas no sistema nervoso central dão a bebida enorme reconhecimento: o chá de “expansão da consciência”. Ainda que a capacidade cognitiva de quem a consome não seja efetivamente expandida, existe nesse processo um vasto campo de pesquisas que buscam entender como utilizar esse composto em outras áreas.
Diversas comunidades dependem desse enteógeno para fins religiosos, como povos indígenas (pelo menos 72 povos distintos fazem uso da bebida), o Santo Daime (Alto Santo e CEFLURIS), a Barquinha, a União do Vegetal, os neo-ayahuasqueiros e por aí vai. Decorrente da importância dos procedimentos espirituais, o uso da Ayahuasca é protegida por lei mediante a resolução nº 4 de 04/11/2004 do Conselho Nacional Antidrogas - CONAD.
Quando falamos de Ayahuasca também podemos entendê-la como seu princípio ativo, a dimetiltreptamina (DMT, N,N-dimetiltriptamina). Essa substância, para além de psicodélica, faz parte do grupo das triptaminas, que após uma série de transformações enzimáticas torna-se em uma nova serotonina.
Justamente em função desse processo que envolve a “molécula da felicidade”, o DMT acaba por afetar diversas partes do cérebro que são ligadas à regulação emocional, à própria consciência e também à percepção de indivíduos que estejam utilizando direta ou indiretamente essa substância.
Assim, chegamos no grande potencial terapêutico que a molécula apresenta no desenvolvimento de tratamentos alternativos para perturbações do humor, como ansiedade e depressão, ou mesmo para com o uso de substâncias. Existe um longo caminho a se percorrer para entender essa substância como um tratamento final, mas de certo que o futuro é promissor para com alternativas provindas de estudos com DMT e Ayahuasca.
Em função dessa série de etapas químicas, o também endógeno (produzi-
do internamente em nosso organismo) ganhou o apelido de “molécula do
espírito” pelo Dr. Rick Strassman, uma interpretação que parte de
suas características reveladoras para a mente humana.
Ainda assim, apesar de sua grandiosidade para os meios psicodélicos, biologicamente falando essa substância é muito simples — todos os organismos possuem as ferramentas necessárias para sintetizá-la. No entanto, a ampla disponibilidade de DMT ao ser humano nos lança um questionamento sem respostas claras:

POR QUE HÁ TANTO DMT A DISPOSIÇÃO? POR QUE ELE ESTÁ EM NOSSOS CORPOS? QUAL É A SUA FUNÇÃO?

PSILOCIBINA
Existem mais de 180 tipos de cogumelos que podem ser classificados como “cogumelos mágicos”, e a maioria consiste em cogumelos psilocibinos
Chame como você quiser: “carne de deus”, “cogumelos mágicos”, “psilocibina”, todas essas nomenclaturas são apenas métodos distintos pelos quais o ser humano tenta compreender como uma substância psicodélica nos acompanha há séculos em uma trajetória de experimentações e descobertas.
Esse composto é encontrado em fungos dos gêneros Psilocybe, Panaeolus e Conocybe que, por sua vez, fazem parte de mais de 180 espécies encontradas na natureza. Ainda assim, a experiência psicodélica provinda de seu consumo não está diretamente relacionada com os cogumelos, mas, sim, a dois compostos que agem no cérebro de maneira semelhante: a Psilocibina e a Psilocina.
A dupla de complexos de triptaminas (C12H17N2O4P e 4-HO-DMT, respectivamente), quando consumido pelo indivíduo, age na conversão de psilocina e em seguida na conexão com receptores de serotonina — um processo semelhante a maioria dos psicodélicos.
No Brasil, esses fungos não são proibidos pela Anvisa, mas existe um limbo legal sobre seu uso e comercialização. Embora os cogumelos em si não estejam na lista de substâncias proibidas, a Psilocina e a Psilocibina estão listados como substâncias psicotrópicas ilegais, impossibilitando a venda e compra direta dessas substâncias psicoativas isoladas.
A Psilocibina causa uma série de efeitos serotoninérgicos físicos e psicológicos, dando destaque para as sensações alucinógenas como aumento da plasticidade neural, da sensação de bem-estar, assim como alteração da percepção da realidade, levando a efeitos como a sinestesia.
Em paralelo a isso, é tão recente como interessante a prática de microdosagem, que consiste no uso frequente das mesmas substâncias, porém em quantidades muito inferiores a doses que proporcionam “grandes viagens”. Essa prática é associada a efeitos positivos, incluindo redução dos sintomas de depressão e ansiedade, aprimoramento cognitivo, produtividade e foco, bem como estímulo à criatividade.
Seus benefícios espirituais, aliados ao potencial clínico, são
responsáveis por carregarem esses pequenos cogumelos com uma enorme
bagagem cultural. Os primeiros estudos realizados com psicodélicos nas
décadas de 50 e 60 colocaram grandes expectativas no desenvolvimento psiquiátrico
e farmacológico dessas substâncias. No entanto, o mesmo entusiasmo que as
cercava levou a uma repressão generalizada, que resultou na criminalização e na
proibição quase universal de seu uso, tanto recreativo quanto científico.
As heranças do período de contracultura só se dissiparam recentemente — no atual período psicodélico de “renascimento” que vivemos — e, com isso, surgem novas pesquisas, testes e estudos que criam um caminho interessante a ser trilhado:

QUAIS SÃO AS PERSPECTIVAS DE USO COMPROVADOS DESDE MICRO ATÉ MACRODOSES DA PSILOCIBINA?

IBOGAÍNA
Sua grafia varia dependendo da região: eboga, eboka, iboga, liboka, ébogé. Há ainda denominações como mdombo, bondo, dibuyi
Entre chás que “expandem a mente” e cogumelos de propriedades “mágicas”, outro composto dos chamados psicodélicos surge como uma alternativa promissora diante a recente onda de pesquisas com estas substâncias: a Ibogaína.
Podendo ser extraída de algumas raízes dos arbustos da família Apocynaceae, o
composto tem origem exclusivamente africana – para ser mais exato, a iboga
pode ser encontrada nas regiões do Congo, Gabão, República Democrática do Con-
go, Angola e Guiné Equatorial. Dessa forma, a raiz até então tradicional aos povos
origináriosafricanos se dispersou de forma precoce pelos mercados de iguarias euro-
peias em função do processo colonizatório do continente.
Por um lado, povos como os Pigmeus e os Bantus passaram a utilizar o
nteógeno em decorrência espiritual e medicinal. Foram dessas experiências que
surgem as tradições Bouiti, Bieri e também o Abri, que surgem a partir das conexões
espirituais provenientesdo consumo psicodélico. Além disso, o uso da Ibogaína por
curandeiros locais é empregado para tratar condições físicas, psicológicas e místicas.
Na outra mão, a ciência contemporânea também previa estudos sobre o composto já na virada do século XX. Em 1901, a Ibogaína foi isolada pela primeira vez e rapidamente já haviam pesquisas que associavam o uso dessa substância e sua relação direta com sua ação anti-aditiva.
Por ser um alucinógeno, não é possível afirmar que a raiz tenha um efeito bem definido. É certo, no entanto, que seu consumo afeta o cérebro e os mecanismos de dependência de nosso corpo. Isso se dá diretamente por sua composição química: o alcaloide estimula a produção de hormônios GDNF que, por sua vez, produzem novos neurotransmissores.
Assim como os outros psicodélicos explorados, a Ibogaína também é uma substância que se encontra em uma posição de legalização indefinida. Segundo regulamentação da ANVISA, nem mesmo a raiz africana ou sua substância isolada estão sujeitas a controle especial no Brasil, ainda que seu uso para tratamentos psiquiátricos não sofram restrições legais.
Ainda assim, é importante entendermos sua relevância no meio científico, visto que a ibogaína se posta como um dos principais compostos que podem vir a combater o problema mundial que vivemos com abuso de substâncias compulsivas (estima-se que 4,9 milhões de pessoas utilizem, segundo pesquisa da Fiocruz). Basta entendermos quão distantes estamos dessa nova perspectiva de realidade.

